Sábado, Dezembro 12, 2009

parabéns*


porque posso estar aqui pela terceira vez.
porque estás aqui para sempre*

Terça-feira, Novembro 24, 2009

de passagem


deixo o sal escorrer dos olhos
de cada vez que lembro o mar

desperta-se a sede de terra,
sede de despedidas breves e sóis poentes,
enquanto os dedos se apertam
para conter a agonia de não voltar

terra de luz, onde choram guitarras
voz quente da distância
guardada num canto da memória

os canais transbordam no pensamento
(como os rios de outrora
que correm no peito desalentado)

quebram-se-me as palavras baças,
o vidro gela na tempestade

estou apenas de passagem

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

...

dá-me a tua mão
sob as brisas insanas de Novembro
deixa o tempo cair sobre os nossos corpos
e esquece o carrossel de rostos que nos invade o pensamento

a sombra dos teus lábios trava-me as palavras
os teus beijos libertam rios de chuvas matinais
nevoeiros nossos pairando sobre a cidade

o teu braço puxa-me para amanhã
rasgam-me a pele os teus olhos
e há séculos que se desfazem sobre o meu peito aberto
(limpando a idade dos poros gastos
epiderme retumbante onde te deitas)

recolhe as cinzas do fogo em que nos consumimos
antes que o vento de novo nos incendeie

a saudade está morna ainda

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

sombras vermelhas de metal
por entre o sangue férreo,
vinho que se desfaz nas nossas veias

ébrio, sorves cada gota rosada
em travos frenéticos

(palavras entarameladas
caem dos copos, corpos suados)

o que sentimos esvai-se
na distância das cadeiras;
pele que não se toca,
saudade que esquecemos...

quando acordo
sei que perdi

Sábado, Outubro 31, 2009

descalço as sandálias.
enterro os pés na areia molhada das cartas que trocámos
e deixo que a maré me suba até aos olhos,
água salgada que me inunda as veias.

esqueço que o sangue deve correr.
tiro o vestido e a nudez afaga os lençóis onde se apagou a tua imagem.

de nós ficou apenas o odor a terra molhada.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

outono

chuva que cala as gentes

os passos molhados no chão vazio
ecoam a surdez desta cidade infinita

cidade de céu e inferno

corremos sob a água lacrimejante
esperando alcançar o sol
ou outro sorriso

para que o vácuo tenha mais luz
para que tu sejas tu de novo

o som da chuva vai e vem
como as gentes

as tuas palavras ficaram perdidas
noutra estação

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

guardo nos lábios o sabor do mosto amargo
ardor a sangue nosso que rasga as veias caiadas

fecho as pálpebras
a dor de te sentir abre-me o corpo pálido
e a respiração pára nos anos que te precederam
na vida que não o foi

deixo crescer a distância nos teus olhos
deixo-te empurrar-me até cair
e perco o chão
perco casa

a pele desfeita de encontro às cartas que te escrevi
e as palavras que sufocam
de novo
sufocam